Uma estrada para o carro elétrico

Foto: Divulgação

Imagine uma estrada onde trafegam carros elétricos cujas baterias são recarregadas online, com os veículos em movimento. A cena, que poderia estar num filme de ficção, retrata uma experiência real na Inglaterra. Se for bem sucedida, em um ano e meio a novidade estará nas principais rodovias inglesas e certamente será replicada em outros países. Essa inovação, de grande potencial disruptivo, pode viabilizar a popularização dos carros elétricos, não poluentes, como alternativa aos veículos dotados de cano de escapamento.

À frente do projeto está a Highways England, estatal que controla as rodovias por onde escoam dois terços do transporte de carga e um terço do tráfego nacional na Inglaterra. Ou seja, é papo sério, calçado em um projeto que consumiu dois anos de estudo (veja o relatório aqui) e alimentado por um orçamento de 500 milhões de libras. A opção tecnológica foi pelo sistema DWTP (Dynamic Wireless Power Transfer) que consiste em criar, na rodovia, campos magnéticos capazes de se conectar com receptores instalados no veículo elétrico, como numa rede wi-fi, e recarregar suas baterias.  O que move a estatal e o governo inglês é o compromisso de reduzir em 80% a emissão de CO2 Até 2050. O carro elétrico desponta como uma das soluções.

Tirar mercado dos veículos movidos a combustível é tão difícil como tirar o osso da boca de um cachorro grande. Mesmo o papa do conceito de disruptura, o professor de Harvard Clayton Christensen, é cético em relação à possibilidade de os carros convencionais serem substituídos pelos elétricos, principalmente em razão do preço. Para ele, é mais provável que a disruptura ocorra nas beiradas do mercado. Por exemplo, carros elétricos como meio de transporte para os jovens irem à escola ou circularem pelo bairro. Nesse nicho, em lugar de competir estariam criando um novo mercado de consumo.

A iniciativa inglesa aposta em outro desenrolar da história. Tem diante de si o paradoxo do ovo e da galinha: é preciso baratear os carros elétricos para ampliar o seu uso, e vice-versa. Com o poder que emana do Estado, vai atacar o problema pelo lado da infraestrutura, criando condições que estimulem o consumidor: facilidades para recarga e ampliação da autonomia dos veículos.

Em outros países, experiências semelhantes, embora não tão ambiciosas, vêm sendo realizadas. Na cidade de Gumi, na Coréia do Sul, há linhas de ônibus elétricos que são recarregados on line, projeto do Korea Advanced Institute of Science and Technology. Em Mannheim, na Alemanha, ônibus elétricos são recarregados quando param nos pontos para pegar passageiros. Nos Estados Unidos, há projetos em teste, principalmente em universidades.

No Brasil, a questão da infraestrutura de abastecimento para carros elétricos ainda precisa ser enfrentada. Mas há boas notícias. Uma decisão recente do governo isentou os carros elétricos do imposto de 35% sobre a importação, o que ajudará a baratear os carros para os consumidores.

Se o projeto inglês de implantação de estradas elétricas, em grande escala, for bem sucedido, começarão a cair as barreiras ao uso mais amplo do carro elétrico pela população. Ele tem a seu favor a torcida, em todo o mundo, das forças que apoiam o desenvolvimento limpo e sustentável, o que requer também a progressiva abolição do transporte gerador de fumaça.


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