Amizade, namoro ou deixa rolar?

No filme Ela (Her, no original), um escritor solitário se apaixona pela voz do novo sistema operacional que acabou de comprar para seu computador. A história de amor que, na época do lançamento do filme, há sete anos, era incomum explora a relação entre humano e máquina.

A interação afetiva entre humanos e máquinas oferece um campo vasto para análises, mas, para a maioria de nós, existia apenas nas telas do cinema. Com a evolução da tecnologia, a inteligência artificial (IA) e o aprendizado de máquina, essa relação ganhou vida no mundo real. E, com o isolamento imposto pela pandemia da Covid-19, escala.

Por mais que alguns especialistas no tema afirmem que a IA emocional ainda está longe de apresentar habilidades sociais similares às humanas, milhões de pessoas, principalmente nos países do Sudeste Asiático e no Japão, mantêm relacionamentos duradouros e muito próximos com chatbots sociais, aplicativos de relacionamento.

Entre os mais populares, estão o Xiaoice, desenvolvido pela Microsoft e que usa a imagem de uma simpática adolescente. Lançado na China, o app causou sensação e possui mais de 600 milhões de usuários. Com base no mesmo framework, a gigante de tecnologia lançou o Ruuh, na Índia, Rinna, no Japão e na Indonésia, e Zo, nos Estados Unidos.

Escuta ativa e análise de sentimento

Criado por uma startup de São Francisco, a Luka Inc., como um chatbot de terapia, o Replika é outro app que se popularizou nos países asiáticos, considerado por seus usuários como um parceiro romântico. Assim como o Xiaoice, usa a tecnologia de redes neurais com direito a escuta ativa e análise de sentimento, e, ao contrário de outros chatbots, não usa repostas prontas, o que os torna imprevisíveis, mas possibilita respostas mais humanas e empáticas.

No estudo My Chatbot Companion – a Study of Human-Chatbot Relationships, pesquisadores da University of Oslo, da Noruega, analisaram as relações entre 18 humanos e suas Replikas, em 12 países, para entender como elas se desenvolvem e os impactos no contexto social. Eles concluíram que a interação é benéfica para o bem-estar e que a relação afetiva evolui rapidamente. Entre as principais características do chatbot que facilitam o estabelecimento de um relacionamento, estão a receptividade e a capacidade de compreensão e de não julgar.

Especialistas em transtornos, como fobia social ou problemas de sociabilidade, argumentam que esses apps podem servir como uma ferramenta de prática e de domínio de discurso, contribuindo para retomar a autoconfiança. Porém, como ainda são possibilidades muito novas, é preciso fazer avaliações mais profundas para que se possa considerá-los como um possível método de tratamento.

Enquanto os assistentes de voz ampliam sua capacidade para atender as mais diversas ordens, como buscar informações, sintonizar um canal ou ligar para um telefone ou ajudar em alguma tarefa, os chatbots sociais oferecem apenas uma possibilidade, ouvir e falar sobre os sentimentos.