Como a pandemia criou uma mentalidade disruptiva?

Via de regra associada à uma nova tecnologia de ponta, a disrupção não está necessariamente ligada a uma descoberta fantástica. Ela define, na verdade, uma mudança no jeito como fazemos alguma coisa ou como nos comportamos numa situação. E se tem uma coisa que a pandemia fez foi mudar nossos hábitos e comportamentos, não é?

A disseminação do vírus da covid-19 mudou de forma quase radical muitas das coisas que fazíamos e criou novos hábitos, como o distanciamento social, o uso de máscara no mundo ocidental, as consultas por telemedicina e o trabalho remoto. Com a pandemia, e a necessidade de preservar nossa saúde e a dos outros, passamos a pensar constantemente em como realizar nossas tarefas sem nos expor ao risco de contágio. Ou seja, passamos a ter uma mentalidade disruptiva.

A disrupção pode vir com o lançamento de um novo produto ou serviço, que muda consideravelmente o jeito de fazer, consumir ou resolver algo, mas ela pode acontecer também com a diminuição relevante nos custos ou preço. Se um serviço que costumava ser cobrado passa a ser oferecido gratuitamente com a mesma eficiência, ele causa disrupção, porque ninguém mais conseguirá cobrar por ele. Ou seja, podemos gritar “Eureka” sem necessariamente descobrir uma teoria da física, como o matemático grego Arquimedes.

A pandemia da covid-19 acelerou a transformação digital. Algumas tendências que já vinham surgindo foram aceleradas e amplificadas. Avançamos em meses o que provavelmente levaria alguns anos se não houvesse uma emergência global. Novas soluções e serviços, plataformas digitais, startups se multiplicaram numa velocidade impressionante.

Em meio aos complexos desafios em áreas muito distintas, como ciência, saúde, comércio, alimentação, transporte, o cenário desenhado pelo novo coronavírus criou inúmeras oportunidades. Ao que tudo indica, as mudanças promovidas pela pandemia devem moldar as principais tendências tecnológicas a serem incorporadas nos próximos anos.

Voltaremos a reunir os amigos, viajar e sair às ruas

Estamos caminhando para uma era de XaaS (Everything as a Service), em que as empresas oferecerão produtos e serviços em ambientes tecnológicos cada vez mais descentralizados, com soluções sob demanda e customizadas. O trabalho remoto e a colaboração virtual passarão a ser a regra (o tal novo normal) em muitas áreas, mesmo quando superarmos as incertezas decorrentes da pandemia.

Tecnologias que estão despontando, como internet de comportamentos (IoB ou Internet of Behaviors), com interações cada vez mais móveis e virtuais, sistemas capazes de garantir privacidade e proteção de dados, serviços em nuvem pública, processos de negócios mais inteligentes e flexíveis e hiperautomação moldarão essa nova realidade. Essas tecnologias, somadas ao avanço de inovações como machine learning, internet das coisas (IoT), computação em nuvem, inteligência artificial, 5G, digital twins e à mentalidade disruptiva que desenvolvemos, nos levarão ao próximo estágio, que alguns chamam de Quarta Revolução Industrial.

Essas mudanças terão grande impacto no mundo corporativo, na economia e nos comportamentos sociais. A ciência de materiais é uma das áreas que deve passar por uma disruptura, com o desenvolvimento de produtos que, além de recicláveis, possam ser reaproveitados ampliando significativamente sua vida útil e reduzindo a geração de resíduos. Da mesma forma, a necessidade de reduzir substancialmente as emissões de gases, nos levará a mudanças expressivas nas áreas de energia e transportes.

A saga da covid-19 vai terminar e certamente retomaremos velhos hábitos, como reunir os amigos, viajar e sair às ruas sem receio, mas, mesmo assim, nossa realidade será muito diferente da que vivemos até o aparecimento do novo coronavírus.