Pandemia da Covid-19 acelera pesquisas e amplia o compartilhamento de dados

Com mais de 1,3 milhão de pessoas infectadas no mundo, a pandemia do novo coronavírus (hCoV-19) mobilizou a comunidade científica numa intensidade que nenhum outro surto de doença ou episódio alcançou. Não há registro de outro momento na história em que tantos cientistas, médicos e pesquisadores estivessem simultaneamente dedicados a um único tópico e com tanta urgência.

Laboratórios em todo o mundo já produziram mais de uma centena de sequenciamentos genéticos do hCoV-19 e há mais de 200 pesquisas clínicas em curso, a grande maioria envolvendo pesquisadores de institutos, laboratórios e hospitais de diferentes países trabalhando conjuntamente. Se, culturalmente, os cientistas já eram acostumados a ignorar fronteiras geográficas em suas pesquisas (o projeto Genoma, que possibilitou sequenciar o DNA humano, é um exemplo de colaboração internacional), a pandemia fez com que desaparecesse a preocupação com o sigilo que normalmente envolve a pesquisa de saúde no meio acadêmico.

Os pesquisadores, geralmente, mantinham em segredo suas descobertas até que elas fossem aceitas por publicações científicas conceituadas, após a revisão por pares e validação de suas conclusões, com receio de que alguém pudesse usá-las ou desenvolver algo similar. Criadas há não muito tempo, plataformas online para compartilhamento preliminar de resultados de pesquisas ainda não comprovados, como a bioRxiv e a medRxiv, vêm recebendo cerca de dez trabalhos por dia, todos relacionados ao novo coronavírus.

Dedicação e urgência em escala global

Da mesma forma, os novos sequenciamentos genéticos são rapidamente compartilhados em plataformas como a Gisaid, que reúne dados sobre pesquisas dos diversos vírus de gripe. As equipes editoriais das publicações científicas passaram a trabalhar intensivamente para reduzir seus prazos de análise e validação das pesquisas. Recentemente, o renomado New England Journal of Medicine (NEJM) publicou um trabalho apenas 48 horas após ter sido enviado, quando normalmente esse prazo pode levar meses. Plataformas de compartilhamento de dados sobre saúde, muitas delas ligadas a universidades, rapidamente criaram áreas específicas para reunir informações sobre o novo coronavírus.

Para alguns cientistas, a situação mais próxima da que experimentamos atualmente foi no auge da epidemia de AIDS, na década de 1990, quando a comunidade médica e científica internacional se uniu para desenvolver tratamento para a doença. Mas a evolução tecnológica e a proliferação de canais de comunicação aumentaram significativamente as alternativas e o ritmo do compartilhamento de informações.

“A dedicação e a urgência são resultado não somente da gravidade e da extensão da pandemia, mas, também, do fato de que a doença não está restrita a um local menos privilegiado de um país em desenvolvimento”, avalia o especialista em tecnologias disruptivas Arie Halpern.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) está coordenando um estudo global de tratamentos experimentais da Covid-19, cujos resultados ainda não foram comprovados. Medicações usadas no tratamento de outras doenças, como o Remdesivir para Ebola, Kaletra para AIDS, Cloroquina para malária e uso de plasma convalescente são alguns deles. Mas, antes que esses medicamentos possam ser testados em pacientes, eles precisam passar por uma série de etapas de análises e testes em laboratório. “Todas essas iniciativas reforçam a certeza de que o caminho para superarmos esse obstáculo é por via da ciência”, acrescenta Halpern.