Tecnologia gera novas oportunidades de trabalho e renda

As notícias, num primeiro momento, não são boas. Ao tomarmos isoladamente alguns números de emprego, a tendência é nos sentirmos em alguma medida ameaçados em nossas posições pelo acelerado processo de automação pelo qual passa a economia global. Uma recente pesquisa feita no Brasil por técnicos do Laboratório de Aprendizado de Máquina em Finanças e Organizações da UnB (Universidade de Brasília) avaliou o potencial de ameaça de extinção de 2.602 ocupações em todo o País pela concorrência de tecnologias robóticas e outras formas de automação. Considerando os trabalhadores com carteira assinada, cerca de 25 milhões (57,37%) ocupavam vagas com probabilidade muito alta (acima de 80%) ou alta (de 60% a 80%) de automação. Dentre essas categorias, estão  engenheiros químicos (96%), carregadores de armazém (77%) e até mesmo árbitros de vôlei (71%), por exemplo.

Com mudanças tão rápidas no mercado e, ao mesmo tempo, tão profundas, muitas vezes, o sentimento natural é o de angústia. No entanto, não é preciso permanecer apenas nesse registro negativo, uma vez que as transformações de um sistema dinâmico e conectado como é o capitalismo global, se, por um lado, tornam obsoletas algumas ocupações, por outro, abrem novas possibilidades que nem sequer podemos vislumbrar no momento. E isso tem ocorrido ao longo da história, pelo menos a partir da Primeira Revolução Industrial, que já tem mais de dois séculos de História dentro da qual podemos aprender várias lições. Num primeiro momento, teares mecânicos substituiram os trabalhadores artesanais; a máquina a vapor que impulsionava os trens tomou o lugar dos criadores de cavalos; os carpinteiros dos navios perderam seus postos com a chegada das embarcações de ferro. Mas evidentemente essas mudanças não foram o fim do mundo, mas o início de uma nova era de progresso, de aumento da expectativa de vida, de conforto material e de produção de riqueza que iniciou um novo ciclo para a humanidade.

Isso tende a se repetir na era da Indústria 4.0 que estamos vivendo, a das fábricas inteligentes, controles ciber-físicos, computação em nuvem e internet das coisas. Haverá sim profissões que tenderão a ser ultrapassadas e serão obrigadas a reinveções, mas também surgirão oportunidades, e essas começam a ser detectadas em pesquisas aplicadas. Um levantamento do Senai Nacional, chamado Mapa do Trabalho Industrial 2019-2023, indica que mesmo na indústria, justamente o ramo que é considerado mais sensível à perda de postos pela automação, haverá um forte crescimento na demanda em alguns segmentos, e as maiores taxas serão de ocupações que têm a tecnologia como base. Os maiores índices detectados foram para condutores de processos robotizados (22,4% de aumento no emprego); engenharia e tecnologia (17,9%); engenheria de controle e automação, engenheiros mecatrônicos e afins (14,2%); diretores de serviços de informática (13,8%); operadores de máquinas de usinagem CNC (13,6%).

Se há desafios consideráveis, cabe enfrentá-los, sem nunca descuidar do investimento na formação intelectual e técnica da população que vai demandar os futuros empregos e, ao mesmo tempo, contribuir com sua força de trabalho para o desenvolvimento e o bem estar da nação. E sempre é bom lembrar que, como a História nos ensina, a produtividade trazida pelas novas tecnologias representa ameaças pontuais, mas, quando olhada como um todo, só pode significar o avanço na riqueza média e na qualidade de vida de uma comunidade que está disposta a progredir.